Eu dou uma oficina de escrita às quintas à noite, numa sala emprestada em cima de uma livraria no centro de Florianópolis. Doze alunos, todos adultos, quase todos com um romance começado na gaveta. Depois do divórcio, aquelas duas horas viraram a melhor parte da minha semana.
Eu tinha uma regra, e ela era simples: aluno é aluno.
O Daniel entrou em agosto. Trinta e oito anos, engenheiro, barba por fazer, aquele jeito de quem pede desculpa por ocupar espaço. Escrevia pouco e bem. Nas primeiras semanas mal falava. Sentava na ponta da mesa e ficava girando a caneta entre os dedos enquanto os outros liam.
Naquela quinta o exercício era escrever sobre um desejo que você nunca confessou. Quando chegou a vez dele, ele pigarreou, olhou para o papel e leu sobre uma mulher que corrigia textos com uma caneta verde e mordia a tampa quando alguma frase a incomodava.
Eu estava com a tampa da caneta verde na boca.
Tirei devagar, como se ninguém tivesse percebido. Todo mundo tinha percebido. A Sônia, que senta do meu lado, segurou o riso. Fiz o comentário técnico mais seco da minha vida, falei de ritmo, de adjetivo demais no segundo parágrafo, e passei a vez para o próximo com o rosto queimando.
No fim da aula começou a chover daquele jeito que só chove na ilha, de lado, sem aviso. Os alunos saíram correndo. Ele ficou para ajudar a empilhar as cadeiras, como fazia toda semana, só que dessa vez não tinha mais ninguém para disfarçar.
“Desculpa pelo texto”, ele disse, sem olhar para mim. “Era para ser só um exercício.”
“Tinha adjetivo demais no segundo parágrafo”, eu respondi.
Ele riu. Eu ri também, e foi pior, porque o riso tirou a última coisa que estava entre a gente.
Ficamos esperando a chuva passar, encostados na janela. Ele me contou que começou a escrever quando o pai morreu, porque não conseguia falar disso com ninguém. Eu contei do divórcio, coisa que nunca tinha contado na oficina. Em algum momento a mão dele encostou na minha no parapeito e nenhum dos dois tirou.
Fui eu que beijei. Quero deixar isso registrado, porque passei um ano achando que tinha esquecido como se fazia. Não tinha. Ele me beijou de volta devagar, com cuidado, como quem lê uma frase pela segunda vez para ter certeza do que entendeu.
A livraria lá embaixo já tinha fechado. A chuva não passou. Tranquei a porta da sala por dentro, apaguei a luz grande e deixei só a luminária da mesa. Ele desabotoou minha blusa como quem vira a página de um livro emprestado, e eu deixei, sem pressa, querendo que durasse.
O que aconteceu em cima daquela mesa, entre os textos corrigidos e as canetas espalhadas, eu guardo para mim. Só digo que fazia muito tempo que ninguém prestava tanta atenção em mim.
Saímos depois da meia-noite, dividindo um guarda-chuva quebrado. Na esquina ele perguntou se a regra continuava valendo.
“Continua”, eu disse. “Aluno é aluno.”
Na semana seguinte ele trancou a matrícula.
Agora a gente se vê às quintas do mesmo jeito, só que depois das dez. E eu ainda corrijo os textos dele com a caneta verde.
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